Conteúdo informativo · Atualizado em setembro de 2026
Apneia do sono — na forma mais comum, a apneia obstrutiva do sono — é a respiração que para e volta várias vezes durante a noite, porque a garganta se fecha por instantes enquanto a pessoa dorme. Os sinais mais frequentes são ronco forte, pausas na respiração percebidas por quem dorme ao lado, sono que não descansa, sonolência durante o dia e levantar várias vezes à noite. Ela é uma das causas mais comuns, e ainda pouco diagnosticadas, de pressão alta que não baixa mesmo com remédio — e interfere na glicemia e no apetite antes de a pessoa ligar uma coisa à outra.
O que é apneia do sono?
Durante o sono, os músculos da garganta relaxam. Em algumas pessoas, isso estreita ou fecha a passagem do ar por alguns segundos: o oxigênio no sangue cai e o cérebro provoca um despertar rápido, do qual a pessoa não se lembra, só para reabrir a via aérea. Isso pode se repetir dezenas ou centenas de vezes por noite. A cada episódio, o corpo libera adrenalina, o coração acelera e a pressão dá um salto — de madrugada, quando deveria estar em repouso.
O excesso de peso, sobretudo no pescoço e no abdome, é o fator mais frequente, mas a apneia também aparece em pessoas magras: idade, menopausa, álcool à noite, obstrução nasal e queixo pequeno também favorecem.
Quais são os sintomas de apneia do sono?
Quem tem apneia raramente sabe: os despertares são curtos demais para ficar na memória. Por isso, parte dos sinais é sentida de dia — e parte só quem dorme ao lado percebe.
- Ronco alto e irregular, com silêncios seguidos de um ronco mais forte ou de um engasgo.
- Pausas na respiração notadas por quem divide a cama ou o quarto.
- Sono que não descansa: acordar cansado depois de uma noite inteira na cama, às vezes com dor de cabeça e boca seca.
- Sonolência durante o dia: cochilar diante da televisão, na leitura, em reunião. Ao dirigir, é sinal de alarme e pede avaliação sem demora.
- Levantar várias vezes à noite para ir ao banheiro.
- Pressão alta de difícil controle, arritmias e glicemia que sobe apesar do esforço.
Apneia do sono e pressão alta: qual a relação?
Em quem dorme bem, a pressão arterial cai durante o sono — é o descenso noturno, uma queda natural de cerca de 10% a 20% em relação ao dia. Na apneia, cada pausa na respiração dispara o sistema nervoso simpático, o "acelerador" do corpo, e a pressão sobe na hora em que deveria cair. Com o tempo, a queda noturna diminui ou desaparece: as diretrizes brasileiras de hipertensão (2020, mantidas na Diretriz Brasileira de Hipertensão Arterial – 2025) descrevem esse descenso atenuado como uma das marcas da apneia — uma pressão que não descansa nem à noite.
O Posicionamento Brasileiro sobre Hipertensão Arterial Resistente, de 2020, aponta apneia obstrutiva do sono em 60% a 80% das pessoas com hipertensão resistente — a pressão que continua alta apesar do tratamento com vários remédios. Ou seja: em muita gente que "não responde ao remédio", a causa pode não estar no remédio — depois de conferir se a medida está certa e se o remédio vem sendo tomado como prescrito —, e sim no sono.
O metabolismo também sente. Num estudo pequeno, com nove voluntários saudáveis, uma noite de apenas quatro horas de sono já reduziu a sensibilidade à insulina — o hormônio que leva a glicose do sangue para dentro das células (JCEM, 2010). Em outro, com homens jovens saudáveis, duas noites de sono curto reduziram a leptina, o hormônio da saciedade, e aumentaram a grelina, o da fome (Annals of Internal Medicine, 2004). São estudos de sono curto, não de apneia; mas a apneia fragmenta o sono noite após noite, e a sua associação com resistência à insulina e ganho de peso é consistente nos estudos populacionais.
Como saber se tenho apneia do sono?
A investigação começa pela história — e, sempre que possível, pela história de quem dorme ao lado, a testemunha que costuma faltar na consulta. A que horas você deita, quantas vezes levanta, se ronca, se já ouviu que para de respirar, como acorda, se cochila de dia. Depois, o exame físico: pressão, peso, cintura, pescoço, garganta e nariz.
O MAPA de 24 horas — a monitorização ambulatorial da pressão arterial, feita no consultório: o aparelho é instalado e mede a pressão por um dia inteiro, inclusive enquanto você dorme — mostra se a pressão cai à noite como deveria. O que eu vejo em décadas de consultório: a pressão que não desce à noite no MAPA muitas vezes é o primeiro sinal objetivo de um sono sobre o qual ninguém perguntou.
O diagnóstico vem do exame do sono. Quando a suspeita é consistente, eu peço a polissonografia — o exame completo, feito em laboratório do sono, que registra respiração, oxigênio, batimentos e fases do sono — ou o exame domiciliar, versão simplificada feita em casa com um aparelho portátil. O resultado mostra quantas vezes por hora a respiração para ou diminui; é esse número que define se a apneia é leve, moderada ou grave.
Apneia do sono: tratamento existe e é individual
O tratamento depende da gravidade, da causa e da anatomia de cada pessoa. Nos casos leves, perder peso quando há excesso, evitar álcool e sedativos à noite, tratar a obstrução nasal e dormir de lado podem bastar. Nos moderados e graves, costuma-se indicar um aparelho de pressão positiva contínua (CPAP), que sopra ar por uma máscara e mantém a garganta aberta durante o sono; placas orais e cirurgia cabem em casos selecionados. Quando a apneia é tratada, pressão, sono e disposição costumam responder — a pressão, em geral, de forma modesta; tratar a apneia soma-se ao remédio, não o substitui — — mas a decisão sobre remédios continua médica: quem tem pressão alta não muda a medicação por conta própria, nem antes, nem depois de tratar o sono.
Se você ronca forte, já ouviu de quem dorme ao lado que para de respirar, acorda cansado, sente sono de dia ou tem uma pressão que não baixa apesar do tratamento, vale investigar apneia do sono. Pressão, sono, glicemia e peso são um sistema só — e é assim, em conjunto e na mesma consulta, que a cardiologia e a nutrologia os avaliam. Sonolência ao dirigir não espera: é sinal de alarme.
Você acorda descansado — e quem dorme ao seu lado concordaria?
Dr. João Carlos Donadussi é médico cardiologista e nutrólogo em Cruz Alta – RS · CRM-RS 9610 · RQE 5209 (Cardiologia) · RQE 17353 (Nutrologia)
- Diretriz Brasileira de Hipertensão Arterial — 2025. Arq Bras Cardiol 2025;122(9):e20250624
- Diretrizes Brasileiras de Hipertensão Arterial — 2020. Arq Bras Cardiol 2021;116:516-658
- Posicionamento Brasileiro sobre Hipertensão Arterial Resistente — 2020. Arq Bras Cardiol 2020;114:576-96
- Donga E et al. A single night of partial sleep deprivation induces insulin resistance in multiple metabolic pathways in healthy subjects. J Clin Endocrinol Metab 2010;95:2963-8
- Spiegel K et al. Sleep curtailment in healthy young men is associated with decreased leptin levels, elevated ghrelin levels, and increased hunger and appetite. Ann Intern Med 2004;141:846-50
Conteúdo informativo. Não substitui consulta médica nem orienta mudanças de tratamento por conta própria.