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Dr. João Carlos Donadussi

Exames de rotina: quais fazer depois dos 50 e como ler a tendência

Dois laudos iguais, duas pessoas — e só uma deveria sair tranquila. O que muda a leitura é a história, a cintura, a pressão e a tendência dos últimos três anos.

Conteúdo informativo · Atualizado em setembro de 2026

Exames de rotina não servem para confirmar que está tudo normal. Servem para descobrir para onde você está indo. Depois dos 50, o check-up que faz sentido combina exames de sangue (glicemia e hemoglobina glicada, perfil lipídico, função dos rins, do fígado e da tireoide, hemograma), um eletrocardiograma e, quando indicados, exames do coração como teste de esforço, Holter e MAPA — lidos junto com a sua história, a sua cintura, a sua pressão e os laudos anteriores. "Deu tudo normal" é o começo da conversa, não o fim.

Exames de rotina: por que "deu tudo normal" é o começo da conversa?

Dois laudos idênticos, duas pessoas. A primeira tem pai que infartou aos 52, cintura crescendo há cinco anos e pressão "no limite". A segunda não tem nada disso. O papel diz "normal" para as duas — e só uma deveria sair tranquila.

Isso acontece porque o laudo compara o seu número com a faixa considerada normal para a população, não com a sua história. Ele não sabe quem foi o seu pai, nem quantos centímetros a sua cintura ganhou, nem que 134 por 86 já se chama pré-hipertensão pela Diretriz Brasileira de Hipertensão Arterial – 2025 (120–139 por 80–89): ainda não é hipertensão, mas já pede mudança de hábitos e acompanhamento, porque tende a virar hipertensão.

Nas diretrizes de prevenção cardiovascular, infarto ou AVC em pai, mãe ou irmão antes dos 55 anos (homens) ou dos 65 (mulheres) é um fator agravante: reclassifica o risco de quem tem exames "normais". O mesmo colesterol, na primeira pessoa, pede uma conduta; na segunda, outra.

Quais são os exames de rotina depois dos 50?

Não existe lista igual para todos — a história define o que entra. Mas o que eu peço, em décadas de consultório, tem um núcleo comum depois dos 50:

  • Glicemia de jejum e hemoglobina glicada — a glicada mostra a média da glicose dos últimos dois a três meses; junto com a glicemia, identifica a pré-diabetes antes de qualquer sintoma.
  • Perfil lipídico — colesterol total, LDL (a fração que se deposita na parede da artéria), HDL (a que ajuda a remover) e triglicerídeos (gordura que sobe com carboidrato em excesso, álcool e gordura abdominal).
  • Função renal — creatinina e taxa de filtração estimada; quando indicado, albumina na urina, que acusa dano renal cedo em quem tem pressão alta ou diabetes.
  • Função hepática — as enzimas do fígado (TGO, TGP, gama-GT), que se alteram na esteatose, o fígado gorduroso ligado à gordura abdominal.
  • TSH — mostra se a tireoide está acelerada ou lenta; a tireoide lenta altera colesterol, peso e disposição.
  • Hemograma — anemia e alterações das células do sangue.
  • Vitamina B12 e vitamina D, quando indicadas — depois dos 60, em quem usa por anos remédios que reduzem o ácido do estômago ou para o diabetes, em quem toma pouco sol.
  • Eletrocardiograma (ECG) — o registro elétrico do coração: ritmo, sinais de sobrecarga, cicatriz de infarto antigo.
  • Teste de esforço, Holter e MAPA, quando indicados — o teste de esforço avalia o coração sob exercício; o Holter grava o ritmo por 24 horas; o MAPA mede a pressão ao longo de 24 horas, inclusive durante o sono. Esses quatro exames do coração eu faço no próprio consultório.

Rastreamentos de câncer (colonoscopia, mamografia e outros) seguem calendários próprios, conforme idade, sexo e história.

Como ler a tendência dos exames de rotina?

Um laudo é um ponto. Três laudos são uma linha — e a linha tem direção. Uma glicemia de jejum que foi de 86 para 92 e depois para 99 mg/dL está "normal" nos três laudos, mas desenha uma reta que aponta para a pré-diabetes (a partir de 100, pela Sociedade Brasileira de Diabetes). Uma creatinina subindo dentro da faixa normal pode ser o rim perdendo função devagar. Uma pressão que foi de 118 por 76 a 134 por 86 em três anos cruzou para a pré-hipertensão sem nunca ter dado "alterado".

Em casa: ponha os exames dos últimos três anos lado a lado. Dentro do "normal", o número está subindo? Isso é tendência — e é o que eu vejo primeiro, em décadas de consultório, antes de qualquer laudo isolado. A cintura entra na mesma lógica: acima de 94 cm no homem e de 80 cm na mulher já pede atenção — e cintura crescendo com peso estável é um dos avisos mais comuns de gordura visceral.

O que a história diz que o exame não mostra?

A leitura conjunta começa antes do laudo. História familiar: quem teve infarto, AVC ou diabetes, e com que idade. Peso ao longo dos anos: quanto pesava aos 30, aos 40, hoje. Sono: ronco, pausas na respiração, sono que não descansa — a apneia do sono é uma causa esquecida de pressão difícil de controlar. Remédios: diuréticos, corticoides e outros medicamentos podem alterar glicemia, ácido úrico, lipídios e potássio, e um exame lido sem essa lista engana. Atividade física, álcool, tabaco, estresse e a alimentação real — não a ideal.

Coração e metabolismo são um sistema só: a cintura que cresce puxa a pressão e a glicemia; a glicemia que sobe endurece a artéria; a artéria que endurece cobra do coração e do rim. Avaliar essas peças em consultórios separados fragmenta a decisão. Quando o mesmo médico, com formação em cardiologia e em nutrologia, lê os exames na mesma consulta, a conduta sai inteira.

Exames de rotina: o que levar para a próxima consulta

Sinais de alarme não esperam o check-up: dor no peito, falta de ar súbita, desmaio ou fraqueza de um lado do corpo pedem o 192 (SAMU) ou o pronto atendimento na hora. Para o resto, os exames de rotina rendem mais quando chegam à consulta acompanhados: os laudos dos últimos três anos, a lista de remédios com as doses, a medida da cintura e a história da família, com as idades. É essa leitura conjunta que transforma "deu tudo normal" em uma direção — e o objetivo não é o laudo bonito. É chegar aos 80 andando, com a cabeça boa e sem UTI no meio.

Você guarda os exames dos anos anteriores?

Dr. João Carlos Donadussi é médico cardiologista e nutrólogo em Cruz Alta – RS · CRM-RS 9610 · RQE 5209 (Cardiologia) · RQE 17353 (Nutrologia)

Dor no peito súbita ou intensa, falta de ar importante, desmaio ou fraqueza de um lado do corpo exigem atendimento imediato. Não aguarde resposta por WhatsApp. Em uma emergência, ligue 192 (SAMU).

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